Defesa da liberdade de expressão

Participantes de reunião da Comissão de Cultura, em sua maioria artistas de Belo Horizonte, defenderam na segunda-feira (23/10/17) a liberdade de expressão em todas as formas de manifestação cultural e artística. Solicitada pela deputada Marília Campos (PT) e pelo deputado Rogério Correia (PT), a audiência da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) teve como objetivo debater como se expressa essa liberdade artística.

A arte deve ser defendida como uma conquista da sociedade. Foto: Sarah Torres

Para Brígida Campbell Paes, artista plástica e professora da Escola de Belas Artes da UFMG, “defender a liberdade de expressão é defender a arte em geral”. Ela afirmou que a arte deve ser vista não como simples contemplação e deleite, mas como um terreno de debate. “O campo da arte é político; é o lugar da diversidade, onde várias formas de pensamento se encontram para discutir”, opinou.

A artista e professora acredita que a cruzada moralista presente no País faz parte de um projeto maior, de aprofundar o golpe contra a presidente Dilma Rousseff. “O que está em jogo é o enfraquecimento de espaços onde prevalece a autonomia e a liberdade, o que é o caso da arte”, argumentou. Em sua concepção, a arte deve ser defendida como uma conquista da sociedade, pois é exibida geralmente em lugares públicos, onde todos têm acesso às produções culturais locais e de todo o mundo.

Obscurantismo - Na opinião de Guigo Pádua, vice-presidente da Associação Curta Minas, desde os primórdios, há pessoas se arvorando o direito de dizer o que deve ou não ser visto e apreciado pela sociedade, como forma de mostrarem seu poder. “Para isso, se valem de recursos como intimidação, obscurantismo e medo”, reforçou. E o público, refletiu ele, acaba embarcando nesses discursos, porque é formado em grande parte por pessoas que se deixam manipular ao se contentarem com respostas prontas.

Já na visão de Michele Sá, atriz do Coletivo de Teatro As Bacurinhas, o atual momento de “caça às bruxas” se mostra de modo mais evidente na perseguição a artistas que estavam à margem e que ocuparam espaços importantes na sociedade. “Vemos atrizes trans com competência profissional e estética inquestionável, e sendo perseguidas. No final, isso passa a atingir não só a nós, artistas, mas ao público, que recebe uma imagem distorcida da arte”, avaliou.

A arte não cooptada é trans

Refletindo sobre o caráter subversivo da manifestação artística, a artista plástica e professora da PUC Marta Cristina Pereira Neves disse que a arte não cooptada é trans. Por esse motivo, afirma, todas as mostras dessa modalidade vem sendo duramente atacadas no Brasil. Ela exemplificou com a polêmica envolvendo a peça "O evangelho segundo Jesus Rainha do céu", de Jo Clifford, em que o Messias é um transgênero. Segundo Marta Neves, foi necessário garantir na justiça a exibição da peça em São Paulo, já que grupos conservadores tentavam impedi-la.

Marta acrescentou ainda que Jo Clifford, uma dramaturga trans britânica, escreveu a peça pensando Jesus como um transgênero, um oprimido falando aos oprimidos. “Cometem erros aqueles que pensam que o objetivo da obra é confundir crianças ou transformá-las em gays. Não se impõe um gênero a pessoa nenhuma”, concluiu.

Autorregulamentação - Rômulo Avelar Fonseca, presidente da Fundação Municipal de Cultura, de Belo Horizonte, defendeu a autorregulamentação como forma de dirimir conflitos envolvendo obras de arte. “Não dá para aceitar que algum iluminado venha dizer o que pode ou não ser exibido”, sentenciou. Ele ainda advertiu para o perigo de haver precipitações na regulamentação dessa matéria, sem ser consultada a classe artística, que se encontra desmobilizada.

João Batista Miguel, secretário de Estado adjunto de Cultura, também se mostrou preocupado com o que chamou de “tentativa de desconstrução das expressões artísticas”. “Muitas opiniões expostas na rede social partem de quem não assistiu a exposição e nada é mais cômico do que criticar um livro que não se leu”, postulou ele, demonstrando apoio à liberdade artística e colocando as portas da Secretaria abertas para as manifestações.

Voltar