Entrevista com o inventor-empreendedor brasileiro, Paulo Gannam

Quatro invenções já estão com patente requerida no INPI. Mais de 800 ideias "cruas" estocadas (não desenvolvidas e sem patente, somente breve descrição apontando um problema e sua solução pela criação de um novo produto), além de sugestão de alteração na Lei de Propriedade Industrial para melhorar as condições de trabalho e direitos de inventores autônomos, pessoas físicas. Esse é o referencial do mineiro de São Lourenço

Paulo Gannam, mineiro de São Lourenço, exorta a invenção e o empreendedorismo

Insight: Como se deu o seu despertar para as invenções?

Paulo Gannam: Oficialmente, em meados de 2010, quando comecei a ficar incomodado com o fato de surgirem muitas ideias na minha cabeça e eu não fazer muito esforço para materializá-las. Adorava sentar nas esquinas de minha cidade, tomar um cafezinho e observar o comportamento das pessoas que passavam, analisando todo tipo de problema que ocorria nas vias públicas. Um tipo de “voyeurismo inventivo”. Sempre que via um “enrosco”, pensava numa solução para resolvê-lo. As ideias foram se acumulando e, após avaliar mais ou menos umas 50, com um escritório de propriedade intelectual, filtrei quatro conceitos de produto para levar adiante. Minhas primeiras patentes datam de 2011. Extraoficialmente, a tendência para criar soluções que pudessem eliminar antigos problemas começou um pouco mais cedo. Em 2005, comecei a canalizar certa insatisfação com o status quo em favor da criação – ao perceber que os guarda-chuvas eram inúteis para proteger a metade da frente de nossos calçados. Observei o óbvio, que a água perpassava os sapatos, molhava as meias, causando incômodo e frieiras. Comecei aí a bolar uma “roupagem” sofisticada para as antigas galochas (aquele solado 100% borracha usado até em sítios para proteção), mas como eu estava na faculdade de comunicação, foi, como dizem, ‘fogo de palha’, acabei não levando adiante a ideia por estar envolvido em outras atividades. Em 2009, após ter me tornado ‘religioso’ apreciador de creme de açaí na tigela, comecei a bolar uma máquina para converter a polpa do açaí num creme com uma consistência dos deuses que eu tinha conseguido obter com experiências manuais caseiras. Passei quase um ano tentando montar a máquina com um projetista de máquinas, mas fracassamos. Daí me rendi, pois não tinha mais dinheiro para investir. Mas dali em diante, a porteira se abriu e não parei mais de ter ideias. Vinham em pacote e, no auge, tinha umas 20 por dia.

Insight: Sua região é um polo tecnológico. O que falta para incrementar o mercado?

Paulo Gannam: No que diz respeito a aceleração de projetos idealizados por inventores independentes, pessoas físicas, falta tudo. Não existe nenhum programa bem estruturado e atualizado para atender as demandas de pessoas físicas que criam e desenvolvem novos produtos. Existe uma gama de inventores e desenvolvedores autônomos que gera muita inovação, mas que não se converte em negócios. Continuamos comprando tecnologias produzidas em outros países ou apenas por universidades e startups, porque não enxergamos o valor dos nossos profissionais autônomos de criação. Não conheci um só núcleo de inovação de minha região, vinculado a universidade, com real interesse em me auxiliar a acelerar meus projetos para venda ou licenciamento. E contatei vários. A maioria está sucateado ou focando em projetos de professores ou alunos matriculados.

Insight: Qual a importância de se patentear uma invenção e quais as etapas do processo?

Paulo Gannam: Com uma patente deferida em mãos se pode fabricar, comercializar e/ou explorar um produto, processo, ou desenho, com exclusividade, por um determinado período de tempo (normalmente, entre 10 e 20 anos). Patente permite que o País, seja por meio de inventores, seja por meio de empresas, seja estimulado a inovar e criar aperfeiçoamentos dos mais diversos tipos, favorecendo o desenvolvimento social e econômico. Patente gera monopólio, mas é só por um tempo e, além disso, estimula outras empresas a desenvolverem soluções melhores que os projetos monopolizados. Solicitar uma patente inclui a verificação do estado da técnica (patentes anteriores que podem conflitar com a sua), e refletir se sua ideia atende aos critérios de novidade (ineditismo), ato inventivo (não decorra de forma óbvia de algo que já existe) e aplicação industrial (poder ser explorado pela indústria). Acenado grau de ineditismo razoável e atendimento aos critérios de patenteabilidade, é feita a redação do pedido e seu depósito no INPI. A partir de então é obrigação do inventor acompanhar semanalmente na revista do INPI os despachos que acontecem, para saber se algum deles tem ligação com a patente dele. O INPI pode estar fazendo alguma exigência, negando sua patente, pedindo mais esclarecimentos, arquivando seu pedido, cobrando alguma taxa. Já no vencimento do segundo ano após o pedido ser protocolado, o inventor tem de pagar uma anuidade para que seu pedido possa continuar tramitando. Não é fácil, é preciso muita disciplina e atenção. Ter o auxílio de um profissional de propriedade intelectual pode ajudar.

Insight: O sistema de vaquinha (crowdfunding) já foi tentado?

Paulo Gannam: Eu não tentei porque esse método de arrecadação tende a se aplicar mais para empreendedores ou empresários que têm o interesse em alavancar uma empresa, fabricando e comercializando o produto concebido. Já o inventor não vai fabricar e comercializar nada. Ele precisa encontrar uma empresa que o faça, que seja capaz de investir e apoiar o projeto dele, caso compartilhe de sua visão.

Insight: O marketing digital pode ajudar a materializar as ideias de brasileiros talentosos?

Paulo Gannam: É um caminho para se divulgar o produto ao público em geral e a empresas. Aumenta as chances de a invenção ser conhecida e, por sua vez, de aparecer investidor interessado. Mas não faz milagre. O inventor precisa ter conhecimento multidisciplinar para aumentar suas chances de sucesso. Um entrave comum aqui é que o inventor não tem condições financeiras de contratar uma empresa bastante competente para assessorá-lo. Por isso, acaba fazendo uma divulgação que beira o amadorismo e criando relacionamentos profissionais meio que "no peito e na raça". Vai aprendendo intuitivamente no dia a dia o que dá resultado e o que não dá.

Insight: Um app sobre as condições de uma rodovia é mais confiável e mais rápido que o whatsapp?

Paulo Gannam: Qualquer app usado separadamente na rodovia pode ser perigoso e contraproducente, pois desvia demasiadamente a atenção da condução de quem está dirigindo e normalmente apresenta outros recursos que nada têm a ver com comunicação objetiva. O diferencial de meu projeto foi reunir app com hardware. Assim, condutores poderão se comunicar uns com os outros com apenas um clique num botão, sem tirar as mãos do volante. Este botão contem uma imagem associativa com a mensagem que se deseja enviar. Isso no caso de comunicação de um hard para outro. Caso o motorista tenha o hard conectado ao aplicativo que concebi, por meio de um clique de botão, poderá acionar o aplicativo para envio das mensagens, de acordo com a circunstância, de forma tão rápida e segura que faz do uso de isolado de app no trânsito para fins de comunicação coisa do passado. Veja os exemplos: https://www.youtube.com/watch?v=EC_0uHUkCT4 e https://www.youtube.com/watch?v=kD_BZj50zv0.

Insight: Quais das suas ideias se transformaram em tese acadêmica ou partiram de pesquisa na área?

Paulo Gannam: Nenhuma. A maioria surgiu de situações cotidianas que vivenciei e que me despertaram para a possibilidade de solucioná-las da melhor forma possível. Pesquisar ajuda a ter ideias e a melhor desenvolvê-las, mas quer coisa melhor do que os problemas que você identifica no dia a dia? Está tudo aí, um banquete para você explorar desde que mantenha acesa a luz da criatividade e da sensibilidade.

Insight: A indústria brasileira importa talentos ou o País exporta esses talentos?

Paulo Gannam: A indústria brasileira importa ideias e o país como um todo exporta talentos. Como a inovação não é valorizada por aqui, sai muito cara e tem poucos incentivos, quem enxerga fora da caixa costuma estudar, desenvolver coisas e trabalhar em outros países. Ou então, depois de passar um bom tempo fora, um empresário replica algum negócio, que deu certo no estrangeiro, no Brasil. De resto, grandes empresas são na maioria papagaios do que suas sedes no Exterior desenvolvem. Não há autonomia mais de boa parte dos centros de pesquisa e desenvolvimento das filiais do Brasil que permita que concebam e desenvolvam produtos e projetos específicos para o mercado brasileiro. Isso se reflete em outras dificuldades que o inventor enfrenta no dia a dia. Pois, quando ele vai apresentar seu projeto a uma empresa é comum ouvir dos colaboradores que não há laboratório da empresa no Brasil, e que é difícil remeter a ideia para a sede no exterior avaliar. Por isso, às vezes é mais vantajoso conversar com empresas emergentes, menos burocráticas por natureza, e com mais visão e foco para inovação. Sobre a exportação de talentos, um estudo de 2017 feito pelo Ministério da Fazenda apontou um aumento de 165% no número de brasileiros que deixaram o país na comparação com 2011. Quando falamos de TI, os países que mais requisitam brasileiros são Estados Unidos, Canadá e Austrália.

Insight: Como você nos encontrou nas redes sociais? O que acha da web 3.0?

Paulo Gannam: Fiz uma pesquisa no Facebook sobre veículos de comunicação que poderiam ter alguma relação com criatividade, novas ideias... Sobre a Web 3.0, o tema é complexo e acho um pouco cedo para emitir opinião, pois o conhecimento sobre esse assunto ainda está sendo consolidado. Há inclusive centros acadêmicos brasileiros desenvolvendo trabalhos pioneiros para a Web 3.0, com foco em língua portuguesa. Em linhas gerais, haverá mais eficiência, navegabilidade e praticidade na interação do usuário com o acesso aos dados oriundos da web. Um salto que chama a atenção quando pensamos no tipo de rede a que temos acesso hoje.

 

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